Inania Verba

Belíssimo conto do Filipe Couto, aproveitem!

Inania Verba

E ela chegou no seu vestido demasiadamente preto. Foi dela a nobreza de um primeiro gesto. Tocando meu braço, perguntou-me como andava a vida.

E eu queria saber dizer. Eu poderia, na verdade. Mas é que o mundo gira muito mais rápido agora, entende? E o que eu falo nesse agora, já não é mais o que eu falaria há um minuto. As estações não se sucedem; dentro da gente, elas se imbricam. Existe tanto a ser dito. Eu não gostaria de, simplesmente... Entende? Não é tão fácil assim amassar e amansar tudo isso num só peito sem sangrar, sem gritar, sem fugir. E eu não queria nem gritar, nem fugir. O mal que é bem, e não se sabe. Não é fácil, entende? E se a palavra mal cuidada escapa, e se o vento fecha olhos e ouvidos, e se ele leva tudo pra outra ponta da margem do sentido? É muito perigoso pensar em dizer. É preciso silêncio. Eu preciso de silêncio pra pensar, pra dizer. Mas, com você, há crianças e velhos rabugentos discutindo em cada canto da minha criação e, quem sabe... Entende? É como olhar a árvore (reta, força, cor e céu) e pensar na raiz: o real está além do que se vê. Eu precisava me perder pra não te perder, e nos perdia.

- Bem, bem... E a sua?
(por Filipe Couto)

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A argumentação em "O mundo é um moinho"

Meus queridíssimos amigos! Sejam bem-vindos ao nosso blog!

Nesta semana, falemos um pouco sobre argumentação, para que vocês saibam melhor reconhecê-la e utilizá-la.
Para começarmos, leia o poema-canção “O Mundo é um Moinho” do mestre Cartola (se você preferir, veja abaixo a interpretação de Beth Carvalho):



Ainda é cedo, amor:
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

Preste atenção, querida:
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és.

Ouça-me bem, amor:
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó.

Preste atenção, querida:
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.


A primeira estrofe é bastante esclarecedora em relação à motivação do texto. A interlocutora do eu-lírico teria manifestado a intenção de partir (“Já anuncias a hora da partida”), e ele tenta convencê-la do contrário (“Ainda é cedo, amor,”). Vamos analisar algumas das estratégias argumentativas que o eu-lírico utiliza ao longo do poema para persuadir a interlocutora a não realizar seu intento:

1) O tom do discurso do eu-lírico:

Perceba que o eu-lírico utiliza expressões de impacto para anunciar as experiências negativas que sua interlocutora irá passar ao partir (“cai um pouco a tua vida”, “triturar teus sonhos”, ”reduzir ilusões a pó”, “herdarás só o cinismo”, “estás à beira do abismo”). O uso do modo indicativo, que expressa certeza, constrói a idéia de que esse futuro amargo é inevitável. No entanto, esse anúncio é feito de forma carinhosa. Repare que os vocativos (“amor”, “querida”), que são inseridos em todas as estrofes, mostram uma aproximação carinhosa: é como se o eu-lírico quisesse proteger sua interlocutora dos per igos da vida.

2) A contra-argumentação:

A segunda estrofe diz “Embora saiba que estás resolvida/ em cada esquina cai um pouco a tua vida”. Perceba que o eu-lírico primeiro parece aceitar o argumento da sua interlocutora (“estás resolvida”), mas em seguida indica que ele é fraco em relação ao seu (“em cada esquina cai um pouco a sua vida”), o que é bastante interessante como estratégia de convencimento.

3) A coerência das imagens:

A idéia de que “o mundo é um moinho” aparece retomada em vários momentos do textos, criando uma unidade que reforça a idéia central do poema. Repare, também, que o poema estabelece, constantemente, um conflito entre duas personalidades bem distintas: a do eu-lírico, experiente e descrente, e da interlocutora, impetuosa e curiosa, como atestam os versos “Já anuncias a hora da partida/ sem saber mesmo o rumo que irás tomar”.

Filipe Couto - (12/2009)

* Esta aula também foi publicada no Blog de Aula do Globonline em 2007.

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Sobre o Três da Tribo

Afinidade de pensamentos, sensações, sentimentos, idéias e ideais. Gosto gostoso de ter estado na "Tribo UVA" e poder seguir adiante, fazendo pactos e inventando modas. É assim que nós, Eliane Vieira, Filipe Couto e Christina Ramalho (Lika, Lipe e Chris), nos sentimos. E, por isso, aqui estamos: Três da Tribo. Uma tribo de Letras, de Literatura, de Arte e de tudo que vier se somar a este desejo forte de palavra. Convite aberto na saudação "Oiá".

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Pensamentos Sambistas

Chão de Giz é uma seção do Três da Tribo destinada às crônicas da Chris. Hoje, tenho o prazer de apresentar-lhes o belíssimo texto da querida amiga Christina Ramalho! Boa leitura!

Pensamentos sambistas

Outro dia me dei conta de que meus pensamentos sambam. E como são sambistas, começam com aquela cadência pausada, convidativa, que faz o coração pular antecipadamente, porque sabe que logo virão a corte de instrumentos e os sons vivos, vibrantes. Discretamente vão associando idéias e ideais, um pouco do que sei e o desejo do muito que não sei até formar uma batucada tal que, além do coração, faz meu ser inteiro sambar igual. Movida pelo samba de meus pensamentos, sigo adiante vida afora, ainda que precise dobrar um pouco os joelhos de vez em quando.

Não sei se meus pensamentos sambistas terão alguma utilidade para este tantas vezes monocórdico mundo. Mas sei, isso sim, que o samba não tem hora nem vez, e que, por isso, sambar não é algo que se controla ou programa. Chico levou o piano dele lá para a Mangueira. Eu, que do Chico só tenho o “ch”, acho que importei cuícas, pandeiros e tamborins mangueirenses e tornei meus pensamentos sambistas sem retorno. Úteis ou inúteis, meus pensamentos sambarão comigo até o fim. Ou eu, até o fim, sambarei por eles.

(27/11/2009)


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"Dia Branco": promessas às avessas

Mesmo quem me conhece só um pouco sabe da paixão que tenho pela canção “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo e Renato Rocha.
A suavidade da melodia e a singeleza da letra resultam naquele tipo de obra-prima que dá a sensação de que foi feita a partir de cada um de nós, numa espécie de “autoria universal”. Essa sensação explica-se pela capacidade que seus autores tiveram de captar a essência da expectativa amorosa no que ela possui, simultaneamente, de desejo de cumplicidade e de eternidade. O amor “que seja eterno enquanto dure” do Vinícius (outra brilhante constatação poética acerca da relação amorosa) tem, em “Dia Branco”, outro sentido: “que seja pro que der e vier”. Falar sobre a letra e os modos como o sentido poético vai sendo construído é, portanto, para mim, um prazer. Vamos à análise!

Considerações Iniciais:

A canção “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, apareceu no LP Inclinações musicais (1981), de Geraldo Azevedo e, desde então, foi conquistando novos intérpretes e recebendo, inclusive, versões em que algumas palavras da letra são modificadas ou outras, em que o ritmo é trabalhado de forma diferente. Por falar de amor, de promessa, de expectativas de cumplicidade e eternidade, a canção toca diretamente na questão mais universal do mundo: o que esperar deste sentimento tão simples e complexo que é o amor? “Dia Branco” é, nesse sentido, uma proposta de vivência da relação amorosa. O que a torna muito especial, além da magia de unir o simples ao belo? A capacidade de, no nível da estrutura linguística, desconstruir o sentido do signo “promessa”, num interessante jogo semântico, que muitas vezes deve passar despercebido, ainda que seja fruído pela sensibilidade. Eis a letra:

Dia Branco
(Geraldo Azevedo/Renato Rocha)

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Comigo, comigo.

A análise:

A construção do sentido, ou seja, a elaboração de uma estrutura de significados que, entrelaçados, conferem à letra um valor lírico e uma “mensagem poética”, passa pela organização dos planos sintático, semântico e fonético, com a influência, é claro, dos elementos morfológicos elegidos pelos autores. Comento, a partir daqui, o plano sintático e o semântico, cuja importância para uma leitura mais minuciosa da letra é grande.

No plano sintático, percebe-se uma desestruturação significativa na dupla presença de orações subordinadas adverbiais condicionais “se você vier” e “se hoje o sol sair” vinculadas à oração principal “eu lhe prometo o sol”, o que cria uma incompatibilidade semântica. O que quer dizer isso? Que, ao mesmo tempo em que se constrói uma promessa calcada numa condição dependente de uma outra pessoa (se você vier, eu lhe prometo o sol) se processa uma desconstrução do valor semântico dessa promessa, remetendo-a para uma terceira, no caso, o próprio sol. Assim, prometer o sol “se hoje o sol sair” diminui o poder de realização da promessa ou condiciona sua realização aos desígnios solares. Também o trecho “esse tanto esse canto de amor” revela o caos sintático ao se situar, aparentemente, de forma solta no corpo do poema. A que oração pertencem esses termos? A leitura de um hipérbato, por exemplo, em que se reorganizaria a ordem do trecho final, justificaria a compreensão de uma estrutura possível: “se você quiser esse tanto, esse canto de amor e vier pro que der e vier comigo”. É possível, contudo, uma leitura diferente, que una “Se esse tanto, esse canto de amor branco ele for”, o que mostra o uso do hipérbato como forma de criar uma ambiguidade. O uso do plano sintático como forma de gerar ambiguidade é um dos fatores que agregam valor poético à letra.

Também a desorganização causada pela ausência de pontuação é indício da predominância da desestruturação de sentido própria, inclusive, de produções líricas modernas e pós-modernas. Um poema anterior ao século XX poderia ser lido como um texto coeso, sintaticamente articulado. A partir da Modernidade, como sabemos, recursos inventivos extraíram do poema a “obrigatoriedade” de coesão sintática e de coerência semântica. A pontuação, ou melhor, a ausência de pontuação foi e é, nesse âmbito, um dos recursos mais utilizados.

No plano semântico, incongruências como “Eu lhe prometo o sol se hoje o sol sair” “ou a chuva se a chuva cair”, remetendo o valor semântico de “promessa” ao esvaziamento, porque tudo se promete de forma condicional; a gradação “numa praça na beira do mar num pedaço de qualquer lugar”, sugerindo a ampliação e indefinição do espaço (“onde”) em que se viveria o amor; ou, ainda, “nesse dia branco se branco ele for”, destacando a suspensão da adjetivação inicial (“branco” “se branco for”), promovem a desarticulação da relação sêmica entre “intenção” e “condição”, signos básicos que encontrei na estrutura do texto. Explicando melhor, no plano semântico percebe-se que dois fatores sustentam a vivência amorosa que se propõe: um é a intenção de viver o amor, outro é a condição ou as condições em que ele será vivido.

Como comentei acima, em termos de articulação sêmica, ou seja, na relação entre significados estruturais do poema, pode-se perceber a presença redundante de trechos que sugerem uma condição ¾ “se você vier”, “pro que der e vier” (condição implícita), “se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for” ¾ e outros que traduzem uma intenção ¾ “eu te prometo”, “até onde a gente chegar”, “comigo”. A condição, inserida no âmbito do subjuntivo e relacionada à terceira pessoa (você, sol, chuva, branco), constitui um plano de possibilidades. Já a intenção, relacionada a uma primeira pessoa (“eu”) que se manifesta no tempo presente, indica um plano de disponibilidade. A expressão “canto de amor”, ambígua por poder se referir a espaço físico ou a sentimento, define o ponto em que os dois planos se cruzam ou poderiam se cruzar, ou seja, “se você quiser”, indicando um movimento possível do “outro” em direção ao “eu” sugere a idéia de que o canto de amor solicita uma experiência compartilhada.

Uma leitura inicial relaciona as condições, como se viu, à terceira pessoa. Também o movimento de ir ao encontro do outro parece estar vinculado ao desejo, ou seja, à transformação de uma condição em uma ação (“se”/”vier”). Contudo, visto ser a condição implícita “pro que der e vier comigo” uma colocação ditada pelo sujeito da enunciação (o ser que assume a voz do poema é que propõe ao outro uma condição), pode-se também recolher o registro de uma ação pressuposta desse “eu”, que se revela disposto (intenção) a agir (“até onde a gente chegar”) desde que a condição se cumpra (“se você vier”). Logo, o “pro que der e vier” acaba se fazendo uma condição decisiva para a consolidação de uma relação amorosa que, nesse caso, deverá ser ditada pela total aceitação de quaisquer outras condições impostas pela exterioridade (“se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for”), daí a decorrente inutilidade de qualquer “promessa”.

O título da canção (“Dia branco”) reúne os dois campos semânticos. “Dia” é o espaço concreto do presente (“hoje”) e “branco” o referente da potência significativa aberta de um “dia” não delimitado por um adjetivo específico como seria o caso de “ensolarado” ou “chuvoso”. O “dia branco”, por isso, ratifica a mensagem implícita de que o amor a ser vivido deve estar aberto e ser resistente a qualquer condição que se imponha, inclusive a condição de o dia não ser branco.

A canção propõe um “canto de amor” que só se constituirá como tal “se” o outro “vier pro que der e vier”. Intenção e condição, portanto, se integradas, concretizarão a experiência amorosa. No entanto, a permanência do “se” no campo das possibilidades, não define a inscrição desse amor no plano da realização, ficando a disponibilidade da voz que ama sob suspensão. A subjetividade, portanto, não se realiza a partir de si, mas se torna dependente do outro, cuja predisposição não aparece definida no poema, remetendo o sentido da relação sêmica condição/disposição para o âmbito da hipótese.

“Dia branco”, assim, pode ser lido como uma metáfora do amor incondicional, que, todavia (e paradoxalmente), se sustenta numa condição, o “pro que der e vier”. Como uma carta de intenções amorosas, o “dia branco” só possui um texto: o “pro que der vier” e uma assinatura: “comigo”. A partir daí, a predisposição para o amor se abre a qualquer possibilidade. Todavia, a presença marcante do “se” indica haver a necessidade de uma resposta. Qual virá? Ou a resposta é essa que nós damos quando ouvimos a canção e com ela nos emocionamos, assinando também essa “carta de intenções” e deixando ver que, no imaginário coletivo, o amor carrega consigo, de fato, um vivo desejo de cumplicidade e eternidade?

(Christina Ramalho, novembro 2009)


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er-point com a voz do Geraldo
=> Montagem com a voz da Elba Ramalho, imagens bem legais!

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